O Japão é um dos destinos mais desejados do mundo — e com razão. Mas há um problema: a maioria das pessoas que visita o país faz exactamente o mesmo percurso. Tóquio, Kyoto, Osaka, Hiroshima. Bullet train, templos, ramen, sushis no Tsukiji. Fotografias na Floresta de Bambu. Regresso a casa.
Não há nada de errado com isso. Esses lugares são extraordinários. Mas o Japão tem muito mais para oferecer — camadas de cultura, paisagem e experiência que a maioria dos turistas nunca chega a ver.
Se já visitaste o Japão e queres voltar de forma diferente, ou se é a tua primeira vez e não queres seguir o guião habitual, este artigo é para ti.
Kanazawa — A Kyoto que Kyoto já foi

Kanazawa é, para muitos viajantes que a conhecem, a melhor cidade do Japão. Fica na costa do Mar do Japão, a duas horas de Tóquio de comboio rápido, e preserva uma autenticidade que Kyoto perdeu há muito tempo para o turismo de massas.
A cidade foi uma das mais ricas do Japão feudal — segundo apenas a Edo (actual Tóquio) — e o seu legado é visível em todo o lado: no Jardim Kenroku-en, considerado um dos três jardins mais belos do país; no Higashi Chaya, o bairro histórico das gueixas; e nos museus de cerâmica, seda e artesanato que fazem desta cidade uma capital silenciosa da arte japonesa.
Não há base militar americana em Kanazawa, o que historicamente a poupou aos bombardeamentos da Segunda Guerra Mundial. O resultado é uma cidade antiga que sobreviveu intacta — e que podes explorar quase sem outros turistas à volta.
O que não perder: o Jardim Kenroku-en ao amanhecer (entrada gratuita antes das 8h), o bairro de Higashi Chaya, o Museu de Arte Contemporânea do século XXI e o mercado de marisco Omicho.
Dica: Fica pelo menos duas noites. Kanazawa merece tempo.
Yakushima — A Ilha Que Inspirou a Miyazaki

Se alguma vez viste o filme A Princesa Mononoke do Studio Ghibli, já conheces Yakushima — mesmo sem saber. Esta pequena ilha no sul do Japão, Patrimônio Natural da UNESCO, tem uma floresta tão densa, húmida e coberta de musgo que parece literalmente animada.
Yakushima é famosa pelos seus cedros japoneses milenários — alguns com mais de 2.000 anos — e pelas suas trilhas de montanha que passam por cascatas, rios cristalinos e vegetação que cobre tudo como um tapete verde.
Não é um destino fácil: os trilhos mais famosos exigem boa condição física e equipamento adequado. Mas para quem gosta de natureza, é uma das experiências mais únicas que o Japão tem para oferecer.
O que não perder: o trilho de Jōmon Sugi (o cedro mais antigo da ilha, com cerca de 7.200 anos), as praias de Isso para observar tartarugas marinhas (entre maio e agosto) e as onsen (banhos termais) ao ar livre com vista para o oceano.
Dica prática: A ilha tem precipitação muito elevada — leva roupa impermeável independentemente da época do ano. A chuva faz parte da experiência.
Naoshima — A Ilha da Arte no Mar Interior

Naoshima é uma pequena ilha no Mar Interior de Seto que se transformou numa das experiências artísticas mais surpreendentes do mundo. O que era uma ilha em declínio tornou-se, nas últimas décadas, um museu a céu aberto com obras de Yayoi Kusama, James Turrell e outros grandes nomes da arte contemporânea integradas na paisagem e na arquitectura local.
O resultado é algo que não existe em mais lado nenhum: uma ilha onde podes andar de bicicleta entre museus construídos por Tadao Ando, ver esculturas gigantes numa praia e dormir numa casa tradicional japonesa transformada em instalação artística.
O que não perder: o Chichu Art Museum (literalmente enterrado na colina), a famosa abóbora amarela de Yayoi Kusama na praia de Miyanoura e o Benesse House Museum.
Dica: Reserva com antecedência. Os museus têm limite de visitantes e esgotam-se, especialmente nos fins-de-semana.
Tohoku — O Norte Esquecido

A região de Tohoku, no norte da ilha de Honshu, é talvez a parte mais ignorada do Japão pelos turistas internacionais, o que a torna numa das mais recompensadoras para explorar.
Tohoku tem montanhas vulcânicas, onsen em aldeias remotas, festivais entre os mais espectaculares do país (o Festival Nebuta de Aomori é um dos três maiores do Japão) e uma gastronomia regional distinta que poucos ocidentais chegam a conhecer.
No inverno, a região fica coberta de neve e as florestas transformam-se em paisagens que parecem saídas de um sonho. No outono, as cores das folhas rivalizam com as de Kyoto — sem metade dos turistas.
O que não perder: Matsushima (baía com ilhas cobertas de pinheiros, considerada uma das três vistas mais belas do Japão), a aldeia histórica de Kakunodate com as suas cerejeiras e samurai houses, e as onsen de Nyuto Onsen numa montanha remota.
Melhor época: outubro e novembro para as folhas de outono; janeiro e fevereiro para a neve e os festivais de inverno.
Hiroshima Além do Memorial

Hiroshima é um destino que quase toda a gente inclui no roteiro — mas poucos ficam tempo suficiente para descobrir o que está para além do Parque Memorial da Paz.
A cidade tem uma energia vibrante, uma gastronomia distinta (o okonomiyaki de Hiroshima é diferente — e muitos argumentam que é melhor — do de Osaka) e uma ilha próxima que é um dos lugares mais mágicos do Japão: Miyajima, com o famoso torii vermelho que parece flutuar sobre a água ao pôr do sol.
Mas além disso, Hiroshima tem bairros de rua animados, mercados de peixe, castelos e uma atmosfera de cidade viva e orgulhosa que surpreende quem esperava apenas um memorial.
O que não perder: o Parque Memorial da Paz (claro), a ilha de Miyajima ao pôr do sol, o bairro de Hondori para comer e passear, e o okonomiyaki-mura — um edifício inteiro de restaurantes especializados em okonomiyaki.
Dica: Fica duas noites em Hiroshima. Um dia é pouco.
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